segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Trechos de 'A tarde de um fauno' (L'après-midi d'un faune, de Stéphane Mallarmé)

 

Estas ninfas, eu as quero perpetuar. 

Tão claro, 

Que esvoaça no ar, seu luzeiro encarnado 

Sonolento, volteia, denso. 

Foi sonho? 

 

Dúvida, monte da antiga noite, disponho 

Em muitos finos ramos, que, os mesmos parecendo 

Verdadeiros bosques, provam, que bem sozinho sendo, 

Me ofereci para triunfar a culpa ideal das rosas. 

Reflexões... 

ou dessas mulheres tu glosas... 

 

 

Este corpo pesado, em palavras vazias, 

Sucumbe ao orgulhoso silêncio de meio-dia: 

Sem mais, é preciso jazer no esquecimento da blasfêmia, 

Como eu amo, pela areia alterada, boêmia, 

Abrir minha boca ao astro audaz de vinhedos! 

 

Ninfas, adeus; verei vossa sombra sobre rochedos. 


- Tradução do francês por Dimitri Vital, 2022.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Peça noturna (Night piece, de James Joyce)

Esquelético na escuridão 
As tochas de estrelas pálidas, 
Invulnerada, maré. 
Fogo-espírito impotente ilumina o vazio da imensidão  
Arcos arqueando arcálidas 
Escuro pecado navega a noite-fé. 
 
Serafim 
Os anfitriões perdidos despertam 
Aos afazeres, antes, claro, 
De cada lapso, mudo e turvo do não luar em marfim, 
Levantaram, quando este tem, ventanearam 
Seu incensário. 
 
E longo e elevado 
Para a nave noturna emergindo, 
Canto de estrelas dobradiço — 
Nuvem por nuvem, vai surgindo o incenso assombrado, 
Vazio de adoração subindo 
De almas, o desperdício.

- Tradução do inglês por Dimitri Vital, 2022.

Dois sonetos de Juana Inés de la Cruz (Sonetos IV e IX, de Juana Inés de la Cruz)

 IV. 
Esta tarde, meu bem, quando te falava, 
como em teu rosto e tuas ações eu via 
que com palavras não te persuadia, 
que o coração me visses desejada. 
 
E, amor, que meus intentos ajudava
venceu o que impossível parecia, 
pois entre o pranto que a dor vertia 
o coração desfeito destilava. 
 
Basta já de rigores, meu bem, basta: 
não te atormente mais a ciumenta opressão 
nem o vil receio tua virtude contrasta 
 
com sombras néscias, com indícios vãos, 
pois já no líquido humor viste e tocaste 
meu coração desfeito em tuas mãos. 
 
IX. 
Com a dor de uma mortal ferida 
de uma queixa de amor me lamentava 
e por ver se a morte chegava 
procurava se fosse mais crescida. 
 
Toda no mal, a alma divertida 
pena por pena sua dor somava 
e em cada circunstância ponderava 
que sobravam mil mortes a uma vida. 
 
E quando ao golpe de um e de outro tiro, 
rendido o coração, dava penoso, 
indícios de dar seu último suspiro, 
 
não sei com que destino prodigioso 
revolvi em meu acordo e disse: O que admiro? 
Quem no amor tem sido mais ditoso? 

- Tradução do espanhol por Dimitri Vital, 2022.

Pequeno poema de e. e. cummings (Seven poems - I, de e. e. cummings)

mortais) 

 

escala 

ndo e 

m cada iníci

o 

frenético 

balançantes 

da velocidade do 

salto mortal do trapézio 

abri ndo

ele ela 

&encontram& 

mergulham 

totalmente são eles re

quintados de re 

torno 

e 

caem quem agora derruba quem tudo sonha 

 

sou) 


- Tradução do inglês por Dimitri Vital, 2022.

Excerto inicial de 'Burnt Norton' (Burnt Norton, de T. S. Eliot)

Tempo presente e tempo passado   Ambos estão, talvez, presentes no tempo futuro   E o tempo futuro contido no tempo passado   Se o todo-eter...