quinta-feira, 4 de agosto de 2022

O Azul (L'Azur, de Stéphane Mallarmé)

Do eterno Azul a serena ironia 
Avassaladora, bela indolente como as flores, 
Amaldiçoa seu gênio, impotente poesia 
Através de um deserto estéril de Dores. 

Fugindo, olhos fechados, eu o sinto observar 
Com a intensidade de um remorso aterrador, 
Para onde fugir? Noite abatida com minha alma a esvaziar 
Jogar, despedaçar, desprezar em profunda dor? 

Nevoeiros, levantar! Vertei vossas cinzas monótonas 
Com fios de névoa longos e celestiais 
Afogará lívidos outonos emergindo à tona, 
Construí, silenciosas, as égides finais! 

E tu, saia das lagoas letãs e entesoure 
Vindo a ti a lama e os juncos pálidos, 
Caro Ennui, mão incansável frente ao massacre 
As insignes cerúleas tocaias de pássaros cálidos. 

Novamente! Sem trégua as chaminés deprimidas 
Vapor, e que fuligem uma prisão errante 
Extingue-se no horror de listras enegrecidas 
O sol sucumbindo amarelado no horizonte! 

— O céu está morto. — Ó matéria, eu vôo para ti! 
Esquecendo do Ideal cruel e do Pecado 
Compartilhando a prole, jaz ao mártir 
Felizes homens, enquanto adormece o gado, 

Porque desejo, meu cérebro enfim, esvaziou-se 
Como frasco de maquiagem ao pé do muro, 
Já não se tem arte de abanar a ideia a soluçar-se, 
Bocejo lúgubre direcionando o perecer obscuro... 

Em vão! O Azul triunfa e ouvi sua canção 
Em minha alma vociferando nos sinos de Paris 
Perversa vitória, assuste, setentrião, 
E o metal vivo sai em anjos azuis! 

Se entrelaça pela névoa, antigo e atravessa 
Tua agonia, espada segura nativa do Sul; 
Para onde fugir na revolta inútil e perversa? 
Estou consumado. O Azul! O Azul! O Azul! O Azul!

- Tradução do francês por Dimitri Vital, 2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Excerto inicial de 'Burnt Norton' (Burnt Norton, de T. S. Eliot)

Tempo presente e tempo passado   Ambos estão, talvez, presentes no tempo futuro   E o tempo futuro contido no tempo passado   Se o todo-eter...