quarta-feira, 21 de setembro de 2022

À poesia (À la poésie, de Marceline Desbordes-Valmore)

Ó doce poesia! 
Coberta assim de flores 
A triste fantasia 
Destoa lágrimas e amores; 
Minha terna alma, enganar 
Nos machucamos toda vez: 
Eu não posso mais esperar 
O prazer que o amor me fez. 
 
Dê aos versos da minha lira 
Uma adorável cor, 
Entre a verdade e a mentira, 
Encanto para a minha dor. 
Deixes a nuvem escurecer 
E quem veleja em meus destinos, 
Escape ao enegrecer, 
Para teus acentos divinos. 
 
Sois sempre atenciosa 
Para as minhas aflitivas canções; 
Com uma modéstia temerosa 
Envolva as minhas emoções; 
Ocultar o erro flamejante 
Quem perturba minha excitação: 
Mas, Senhor Deus! tão errante 
Saia já do meu coração! 

- Tradução do francês por Dimitri Vital, 2022.

Vegetações (Vegetaciones, de Pablo Neruda)

Às terras sem nomes e sem números 

baixava o vento desde outros domínios, 

trazia a chuva fios celestes, 

e o deus dos altares impregnados 

devolvia as flores e as vidas. 

 

Na fertilidade crescia o tempo. 

 

O jacarandá elevava espuma 

feita de resplendores transmarinos, 

a araucária de lanças eriçadas 

era a magnitude contra a neve, 

a primordial árvore de mogno 

desde sua copa destilava sangue, 

e ao Sul dos lariços, 

a árvore trovão, a árvore vermelha, 

a árvore do espinho, a árvore mãe, 

o ceibo escarlate, a árvore da borracha, 

eram volume terrenal, sons, 

eram existências territoriais. 

 

Um novo aroma propagado 

preenchia, pelos interstícios 

da terra, as respirações 

convertidas em fumo e fragrância: 

o tabaco silvestre alçava 

seu rosal de ar imaginário. 

Como uma lança terminada em fogo 

apareceu o milho, e sua estatura 

debulhou-se e nasceu novamente, 

disseminou sua farinha, teve 

mortos abaixo de suas raízes, 

e logo, em seu berço, viu 

crescer os deuses vegetais. 

Ruga e extensão, disseminava 

a sementinha do vento 

sobre as plumas da cordilheira, 

espessa luz de gérmen e mamilos, 

aurora cega amamentada 

pelos unguentos terrenais 

da implacável latitude chuvosa, 

das cerradas noites mananciais, 

das cisternas matutinas. 

E mesmo nas planícies 

como lâminas do planeta, 

sob um tênue povoado de estrelas, 

rei da relva, o umbuzeiro detinha 

o ar livre, o vôo rumoroso 

e montava o pampa, sujeitando-o 

com seu ramal de rédeas e raízes. 

 

América arbórea, 

sarça selvagem entre os mares, 

de polo a polo balançavas, 

tesouro verde, tua espessura. 

 

Germinava a noite 

em cidades de cáscaras sagradas, 

em sonoras madeiras, 

extensas folhas que cobriam 

a pedra germinal, os nascimentos. 

Útero verde, americana 

savana seminal, bodega espessa, 

um ramo nasceu como uma ilha, 

uma folha foi forma de espada, 

uma flor foi relâmpago e medusa, 

um cacho redondeou seu resumo, 

uma raiz sucumbiu às trevas.


- Tradução do espanhol por Dimitri Vital, 2022.

Excerto inicial de 'Burnt Norton' (Burnt Norton, de T. S. Eliot)

Tempo presente e tempo passado   Ambos estão, talvez, presentes no tempo futuro   E o tempo futuro contido no tempo passado   Se o todo-eter...