quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Fuga

Gemas e claras

era uma dor constante destinos e perdizes santa fé, santa sé as sangrias mais lentas são momentos de certezas corrompidas, tudo o que importa são coordenadas ferozes e luz, no fim, no coração as chances de ser e merecer necessidades e sentimentos, quem sangrou não enxerga mais quem coagulou não ama mais quem protesta não acredita quem se cala não sente e morre morremos e o que há em mim além de dor? amadas rasgadas fuligens, falanges, falecidas falidas me pese no purgatório quebre os ovos com os pés e os joelhos, profane a casa sangue dos olhos gemas da pele leite das pedras, se calar… e me matar… permanecer aberto em sincronia com o destino é no mínimo, doloroso

. . .

Capitalismo selvagem

não há lógica alguma 

há uma força magnética 

realismo, sintoma 

inflada de suborno 

vestida de liberdade 

 

em dois atos 

realidade, maldade 

a morte da idade, 

meu nariz escorre frio 

no planalto seca 

com a mandíbula enrijecida 

procuro dizer "amor" 

dizer que amo 

 

um mal nasceu no solo 

o ar já não é mais puro 

e todas as crianças estão mortas 

 

essa pressão 

tão cruel e irresistível 

nos impele a não ser 

a nos reificar 

antologicamente, ontologicamente 

ser no mundo 

sem mapas, sem poder 

com vontade, muita vontade 

 

nas chacinas diárias 

corpos pútridos 

inocentes, 

são a nossa nação

água sulfúrica, canhão de chumbo

confluência 

incandescência 

 

fomos abandonados 

não há céu ou inferno 

não existe esperança 

 

amar… 

nos tempos do eu, é cada um por si 

. . .

Braziliense

sob minhas mãos se apertam 

as minhas unhas em nervosismo 

com um suor cortante 

e frio, 

sob meus pés, a alma 

a poeira matinal 

o cheiro do café misturado ao incenso 

e é tudo o que temos 

tudo o que podemos fazer 

 

meu rosto inchado 

defrontando um espelho velho 

de bordas enferrujadas, 

mordo meus lábios até romper 

um fio de sangue em minha boca 

porque lábios quebrados 

não escrevem bons poemas sem sangrar 

 

os armários envelhecidos 

e os azulejos engordurados 

escorrem como perseverança, 

o tilintar das chaves 

desperta a vida da cozinha, 

seu cheiro metálico contrasta 

o viscor das plantas na varanda 

até o chá no fogão se anunciar, 

meus olhos perpassam 

os dela e os dele 

viajando pelo tímido cubículo 

pelas taças guardadas e garrafas vazias 

pelos pratos cor de bronze 

laranjas maduras na bacia 

abacaxis em conserva 

e não existe alegria maior 

do que seus olhos brilharem úmidos 

sufocados pela liberdade de ser e poder ser 

 

desço pelas escadas não reformadas 

um último gesto convidativo 

mas não há beleza em ser no mundo 

 

ser no mundo, sem pressão 

competindo e caindo 

sendo levado e sugado, 

parece que no final das contas 

apenas escolhemos 

de quem seremos escravos 

 

o meu toque é recolhido 

durante o dia que parecem meses… 

e sorrir apesar da dor não é assim falso,

é genuíno

é saber que o outro também sente

apesar da dor… apesar da dor… 

 

e tudo flui depois, enfim 

em furtivos corações, 

nós acordamos e vivemos 

nós respiramos um ar tóxico 

mas é tudo 

tudo o que podemos fazer 

 

o céu gradiente litúrgico 

se escurece em novos males 

 

e aos nossos infernos voltamos 

tocamos, xingamos, rimos, choramos 

gozamos de tesão ou desespero 

e não há nada além disso, 

de estar condenado 

envolto a tantos afetos 

 

a casa costuma ser fria à noite 

minhas narinas secam e se trancam, 

o jantar está servido 

e eu estou tão feliz… 

todos os meus amigos 

todo o meu afeto e calor 

apesar do sofrimento, apesar de tudo 

estamos todos ali, para sempre, 

como um momento capturado 

para sobreviver à eternidade 

de furtivos corações, 

e no final 

todos nós sorrimos 

da forma mais genuína possível

. . .

É, religião

o único paraíso que conheci 

foi a subordinação 

todo o controle e autoridade 

minhas fantasias masoquistas 

rogai, rogai 

 

hoje eu não quero me confessar 

 

minha loucura, bailarina 

morte e vida, severina 

 

lutar, lutamos, luto, labuta 

cada um por si 

porque Deus nos abandonou 

 

mas hoje 

hoje voltamos pra casa 

pro nosso lar primeiro 

onde a lágrima futura a glória 

e a penitência futura a salvação, 

tudo uma questão de soberania 

uma questão de amor 

 

então, Senhor 

me leve aos teus pátios 

da tua santa casa, 

lave meu corpo 

e retire os meus pecados, 

me faça chorar, me faça suplicar, 

eu gritarei como um louco 

profetizando mentiras 

arrancando de meu peito a fé, 

porque este é o verdadeiro paraíso 

sofrer em nome de um maior 

tão maior, tão maior 

tão… real? 

não é real, 

mas eu me levantarei 

e irei fiel 

até o final dessas veredas 

sofrer e suplicar 

 

meu Redentor, me salve 

me salve de mim mesmo 

 

a minha loucura declama aos berros 

"procuro Deus! procuro Deus!" 

não me chamarão de louco 

no dia, no último dia 

 

narrando nossas vidas 

eles enriqueceram 

e nosso paraíso não chegou, 

eles foram para o céu 

mas nós não, 

depois de tudo 

Deus nos abandonou… 

ainda assim gritarei de júbilo 

rogai, rogai 

são dores que me mantém vivo 

 

e todos continuam gritando 

no nosso paraíso, 

que queima como enxofre 

corpos de pecadores 

amém, amém 

 

todos continuam gritando: 

 

Deus nos abandonou 

Deus nos abandonou 

Deus nos abandonou, 

não é sobre nós, nunca foi sobre nós,

é sobre ELES e somente ELES

. . .

Fugitivo

escrevendo no ar da cidade 

o vento colore cinza, preto e fuligem 

fuga do tempo, fuga das horas 

e tudo o que desapareceu 
 

um pavor da existência 

melancolia pelo horizonte 

nos envolve em significados 

e nós não sabemos de nada, 

oh freedom
 

você fala e fala e fala 

sem conseguir dizer nada, 

seus olhos em lágrimas secas 

cauterizam o desespero 

estampado, escancarado 

parabólico,

é tão sintomático

chega a causar náusea 

 

náusea 

 

estou correndo, fugindo 

para um lugar seguro 

estou correndo contra o tempo 

para um lugar seguro 

fugindo, fugindo 

para um lugar seguro 

 

me destruam, me estourem, 

nauseando, 

até quebrarem meus ossos 

escorrerem meu sangue 

e tomarem minha alma 

violada desde cedo, 

vou continuar fugindo 

 

correndo, fugindo, fugindo 

para um lugar seguro

. . .

Meu poeta petrificado

deliberando o cérebro 

já não posso mais, 

doente da calmaria 

da paz constante 

força de mortificar desejos 

de talvez, viver de sonhos? 

viver da própria poesia 

concretizando meus absurdos…

é tudo tão interno, o mundo é tão pra fora

tudo me cansa, 

isso se chama solidão

. . .

Andrômeda

a minha forma, a minha poesia 

não sei 

releva, renova 

de cá pra lá, de lá pra lá 

mais pra cá, acolá 

lua, estrela, Alá 

amado de Ptah

 

na época em que vivia e morria 

confesso que fugi 

mudei minhas ideias, mudei os ventos 
 

força magmática 

certeza da dor constante, 

não há volta? não há sentimento? 

renova a forma, renova a vida 

renova a frieza escolhida,

é sombrio, é ganância, é corpo

é lágrima... é lágrima


às vezes o respirar é punitivo

quase sem querer, 

o luar é infinito 

não se prende, não foge 

como eu fugi, 

os ventos mudaram 

para melhor? pior? 

não sei… 

não há saída? 

talvez.

. . .

Non binary

first of all, i don't care

i really do not care

 

will you love me? will you touch me?

ghost around, 

i'm not exactly what you think

or what you want,

i'm ghost around

i'm better

 

it's a fucking magical world

 

trapped in this atmosphere

the failure of the revolution,

everything we need now

is love

is affection

is care

 

and my body, my voice

all of me,

i deserve love, i deserve pleasure

 

but the [cis]tem?

fuck off

. . .

Paganismo

na superfície sequestrada 

volúpia urbana 

são os verões de garoa 

 

a chuva escorre como um pequeno rio 

maestria do metaverso

malícia, 

era turvo 

e médio, raso 

a média terra dos caldeus 

 

rosas negras do meu prazer 

azeite por toda a travessia, 

minha alma está por um fio - 

nas luzes da cidade 

nas esquinas boêmias 

vou purgar meus pecados 

que Deus me guie, amanhã floreará


último suspiro de um orifício

epiderme da humanidade 

cada vez mais externa 

cada vez mais turva 

 

a nuvem densa decanta o nosso olhar 

como boca aberta para flores e faltas 

 

a despedida é o meu desejo 

cortar, romper a ligação 

entre a pluma e o urânio 

insultos costurados em memórias, 

fonte das minhas alucinações 

cinco dedos machucados


último suspiro de um orifício

amor além da morte

é o corpo físico da alma

é poesia pagã

 

rompe a ligação 

meu corpo desenha unidade, 

todos os sinais 

começam a retornar, 

as feridas começam a cicatrizar 

e os ossos e tendões a se unir 

a carne fecha 

clara e fria 

/quente 

mais que fria quente 

turva de urbana ardente


é o corpo físico da alma

é poesia pagã,

eu amo tanto…


~ Dimitri Vital, 2022.

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