Gemas e claras
era uma dor constante destinos e perdizes santa fé, santa sé as sangrias mais lentas são momentos de certezas corrompidas, tudo o que importa são coordenadas ferozes e luz, no fim, no coração as chances de ser e merecer necessidades e sentimentos, quem sangrou não enxerga mais quem coagulou não ama mais quem protesta não acredita quem se cala não sente e morre morremos e o que há em mim além de dor? amadas rasgadas fuligens, falanges, falecidas falidas me pese no purgatório quebre os ovos com os pés e os joelhos, profane a casa sangue dos olhos gemas da pele leite das pedras, se calar… e me matar… permanecer aberto em sincronia com o destino é no mínimo, doloroso
. . .
Capitalismo selvagem
não há lógica alguma
há uma força magnética
realismo, sintoma
inflada de suborno
vestida de liberdade
em dois atos
realidade, maldade
a morte da idade,
meu nariz escorre frio
no planalto seca
com a mandíbula enrijecida
procuro dizer "amor"
dizer que amo
um mal nasceu no solo
o ar já não é mais puro
e todas as crianças estão mortas
essa pressão
tão cruel e irresistível
nos impele a não ser
a nos reificar
antologicamente, ontologicamente
ser no mundo
sem mapas, sem poder
com vontade, muita vontade
nas chacinas diárias
corpos pútridos
inocentes,
são a nossa nação
água sulfúrica, canhão de chumbo
confluência
incandescência
fomos abandonados
não há céu ou inferno
não existe esperança
amar…
nos tempos do eu, é cada um por si
. . .
Braziliense
sob minhas mãos se apertam
as minhas unhas em nervosismo
com um suor cortante
e frio,
sob meus pés, a alma
a poeira matinal
o cheiro do café misturado ao incenso
e é tudo o que temos
tudo o que podemos fazer
meu rosto inchado
defrontando um espelho velho
de bordas enferrujadas,
mordo meus lábios até romper
um fio de sangue em minha boca
porque lábios quebrados
não escrevem bons poemas sem sangrar
os armários envelhecidos
e os azulejos engordurados
escorrem como perseverança,
o tilintar das chaves
desperta a vida da cozinha,
seu cheiro metálico contrasta
o viscor das plantas na varanda
até o chá no fogão se anunciar,
meus olhos perpassam
os dela e os dele
viajando pelo tímido cubículo
pelas taças guardadas e garrafas vazias
pelos pratos cor de bronze
laranjas maduras na bacia
abacaxis em conserva
e não existe alegria maior
do que seus olhos brilharem úmidos
sufocados pela liberdade de ser e poder ser
desço pelas escadas não reformadas
um último gesto convidativo
mas não há beleza em ser no mundo
ser no mundo, sem pressão
competindo e caindo
sendo levado e sugado,
parece que no final das contas
apenas escolhemos
de quem seremos escravos
o meu toque é recolhido
durante o dia que parecem meses…
e sorrir apesar da dor não é assim falso,
é genuíno
é saber que o outro também sente
apesar da dor… apesar da dor…
e tudo flui depois, enfim
em furtivos corações,
nós acordamos e vivemos
nós respiramos um ar tóxico
mas é tudo
tudo o que podemos fazer
o céu gradiente litúrgico
se escurece em novos males
e aos nossos infernos voltamos
tocamos, xingamos, rimos, choramos
gozamos de tesão ou desespero
e não há nada além disso,
de estar condenado
envolto a tantos afetos
a casa costuma ser fria à noite
minhas narinas secam e se trancam,
o jantar está servido
e eu estou tão feliz…
todos os meus amigos
todo o meu afeto e calor
apesar do sofrimento, apesar de tudo
estamos todos ali, para sempre,
como um momento capturado
para sobreviver à eternidade
de furtivos corações,
e no final
todos nós sorrimos
da forma mais genuína possível
. . .
É, religião
o único paraíso que conheci
foi a subordinação
todo o controle e autoridade
minhas fantasias masoquistas
rogai, rogai
hoje eu não quero me confessar
minha loucura, bailarina
morte e vida, severina
lutar, lutamos, luto, labuta
cada um por si
porque Deus nos abandonou
mas hoje
hoje voltamos pra casa
pro nosso lar primeiro
onde a lágrima futura a glória
e a penitência futura a salvação,
tudo uma questão de soberania
uma questão de amor
então, Senhor
me leve aos teus pátios
da tua santa casa,
lave meu corpo
e retire os meus pecados,
me faça chorar, me faça suplicar,
eu gritarei como um louco
profetizando mentiras
arrancando de meu peito a fé,
porque este é o verdadeiro paraíso
sofrer em nome de um maior
tão maior, tão maior
tão… real?
não é real,
mas eu me levantarei
e irei fiel
até o final dessas veredas
sofrer e suplicar
meu Redentor, me salve
me salve de mim mesmo
a minha loucura declama aos berros
"procuro Deus! procuro Deus!"
não me chamarão de louco
no dia, no último dia
narrando nossas vidas
eles enriqueceram
e nosso paraíso não chegou,
eles foram para o céu
mas nós não,
depois de tudo
Deus nos abandonou…
ainda assim gritarei de júbilo
rogai, rogai
são dores que me mantém vivo
e todos continuam gritando
no nosso paraíso,
que queima como enxofre
corpos de pecadores
amém, amém
todos continuam gritando:
Deus nos abandonou
Deus nos abandonou
Deus nos abandonou,
não é sobre nós, nunca foi sobre nós,
é sobre ELES e somente ELES
. . .
Fugitivo
escrevendo no ar da cidade
o vento colore cinza, preto e fuligem
fuga do tempo, fuga das horas
e tudo o que desapareceu
um pavor da existência
melancolia pelo horizonte
nos envolve em significados
e nós não sabemos de nada,
oh freedom
você fala e fala e fala
sem conseguir dizer nada,
seus olhos em lágrimas secas
cauterizam o desespero
estampado, escancarado
parabólico,
é tão sintomático
chega a causar náusea
náusea
estou correndo, fugindo
para um lugar seguro
estou correndo contra o tempo
para um lugar seguro
fugindo, fugindo
para um lugar seguro
me destruam, me estourem,
nauseando,
até quebrarem meus ossos
escorrerem meu sangue
e tomarem minha alma
violada desde cedo,
vou continuar fugindo
correndo, fugindo, fugindo
para um lugar seguro
. . .
Meu poeta petrificado
deliberando o cérebro
já não posso mais,
doente da calmaria
da paz constante
força de mortificar desejos
de talvez, viver de sonhos?
viver da própria poesia
concretizando meus absurdos…
é tudo tão interno, o mundo é tão pra fora
tudo me cansa,
isso se chama solidão
. . .
Andrômeda
a minha forma, a minha poesia
não sei
releva, renova
de cá pra lá, de lá pra lá
mais pra cá, acolá
lua, estrela, Alá
amado de Ptah
na época em que vivia e morria
confesso que fugi
mudei minhas ideias, mudei os ventos
força magmática
certeza da dor constante,
não há volta? não há sentimento?
renova a forma, renova a vida
renova a frieza escolhida,
é sombrio, é ganância, é corpo
é lágrima... é lágrima
às vezes o respirar é punitivo
quase sem querer,
o luar é infinito
não se prende, não foge
como eu fugi,
os ventos mudaram
para melhor? pior?
não sei…
não há saída?
talvez.
. . .
Non binary
first of all, i don't care
i really do not care
will you love me? will you touch me?
ghost around,
i'm not exactly what you think
or what you want,
i'm ghost around
i'm better
it's a fucking magical world
trapped in this atmosphere
the failure of the revolution,
everything we need now
is love
is affection
is care
and my body, my voice
all of me,
i deserve love, i deserve pleasure
but the [cis]tem?
fuck off
. . .
Paganismo
na superfície sequestrada
volúpia urbana
são os verões de garoa
a chuva escorre como um pequeno rio
maestria do metaverso
malícia,
era turvo
e médio, raso
a média terra dos caldeus
rosas negras do meu prazer
azeite por toda a travessia,
minha alma está por um fio -
nas luzes da cidade
nas esquinas boêmias
vou purgar meus pecados
que Deus me guie, amanhã floreará
último suspiro de um orifício
epiderme da humanidade
cada vez mais externa
cada vez mais turva
a nuvem densa decanta o nosso olhar
como boca aberta para flores e faltas
a despedida é o meu desejo
cortar, romper a ligação
entre a pluma e o urânio
insultos costurados em memórias,
fonte das minhas alucinações
cinco dedos machucados
último suspiro de um orifício
amor além da morte
é o corpo físico da alma
é poesia pagã
rompe a ligação
meu corpo desenha unidade,
todos os sinais
começam a retornar,
as feridas começam a cicatrizar
e os ossos e tendões a se unir
a carne fecha
clara e fria
/quente
mais que fria quente
turva de urbana ardente
é o corpo físico da alma
é poesia pagã,
eu amo tanto…
~ Dimitri Vital, 2022.
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