quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Dois sonetos de Juana Inés de la Cruz (Sonetos IV e IX, de Juana Inés de la Cruz)

 IV. 
Esta tarde, meu bem, quando te falava, 
como em teu rosto e tuas ações eu via 
que com palavras não te persuadia, 
que o coração me visses desejada. 
 
E, amor, que meus intentos ajudava
venceu o que impossível parecia, 
pois entre o pranto que a dor vertia 
o coração desfeito destilava. 
 
Basta já de rigores, meu bem, basta: 
não te atormente mais a ciumenta opressão 
nem o vil receio tua virtude contrasta 
 
com sombras néscias, com indícios vãos, 
pois já no líquido humor viste e tocaste 
meu coração desfeito em tuas mãos. 
 
IX. 
Com a dor de uma mortal ferida 
de uma queixa de amor me lamentava 
e por ver se a morte chegava 
procurava se fosse mais crescida. 
 
Toda no mal, a alma divertida 
pena por pena sua dor somava 
e em cada circunstância ponderava 
que sobravam mil mortes a uma vida. 
 
E quando ao golpe de um e de outro tiro, 
rendido o coração, dava penoso, 
indícios de dar seu último suspiro, 
 
não sei com que destino prodigioso 
revolvi em meu acordo e disse: O que admiro? 
Quem no amor tem sido mais ditoso? 

- Tradução do espanhol por Dimitri Vital, 2022.

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